Episódio 11: A importância do uso de biofertilizantes e os biodefensivos

    No nosso décimo primeiro episódio, falaremos sobre os bioinsumos agrícolas, como os biodefensivos e os biofertilizantes e sua importância na lavoura e no agronegócio brasileiro. Participa deste episódio Valter Casarin, Professor do Programa SolloAgro, Esalq/USP e Christian Lohbauer, Presidente da CropLife Brasil.

    Transcrição

    Aline Araújo: Sejam bem-vindos a mais um episódio do Minuto Agro, é questionando que evoluímos, o podcast da Indigo. Eu sou Aline Araújo, Head de Comunicação da Indigo e esse é o espaço para você ficar atualizado sobre o que acontece no agronegócio no Brasil e no mundo. No episódio de hoje, vamos falar sobre a importância do uso de biofertilizantes e os biodefensivos no manejo da lavoura para o agronegócio e o melhor momento para usar esses produtos.

    Para conversar sobre o assunto com a gente, hoje temos dois convidados especialistas neste tema: Valter Casarin, Professor do Programa SolloAgro, Esalq/USP e Christian Lohbauer, Presidente da CropLife Brasil. Sejam muito bem vindos ao nosso podcast Minuto Agro.

    Christian Lohbauer: Obrigada, Aline. Prazer estar com vc aqui. É Christian falando.

    Valter Casarin: Olá, Aline. Olá, Christian. Olá a todos que estão nos ouvindo. Eu gostaria de agradecer ao convite para participar desse podcast. E fico muito honrado, é sempre muito prazeroso a gente poder falar sobre o agronegócio. Principalmente para a gente poder esclarecer muitos mitos que ainda estão vigorando dentro da nossa agricultura.

    Aline Araújo: Com certeza. A gente é que agradece demais a presença de vcs. E para começar o nosso bate-papo, eu queria que vocês contassem um pouquinho, para quem está nos ouvindo, a trajetória de vocês e como o trabalho está relacionado com o tema de hoje do nosso podcast.

    Valter Casarin: Vamos lá. Eu vou fazer um resumo da minha caminhada. Eu sou engenheiro agrônomo, formado em 1986, depois eu fiz Engenharia Florestal, juntamente com meu Mestrado, aqui em Piracicaba, na . Posteriormente eu fui para a França, fazer meu Doutorado, em Montpellier, na Universidade de Montpellier, em Ciência do Solo. Aliás, hoje, dia 17, eu comemoro meus 22 anos da minha defesa de doutorado. Fui professor em várias universidades daqui no Estado de São Paulo, trabalhei em empresas de fertilizantes por quase 10 anos, Foi diretor do Instituto Internacional de Nutrição de Plantas, por 10 anos também E hoje, além de ser professor do programa Solo Agro da ESALQ/USP, eu tenho uma empresa de consultoria, onde eu tenho realizado treinamento com empresas na linha de fertilizantes, nutrição de plantas e pesquisas também. Isso é um pouquinho da minha trajetória.

    Aline Araújo: Obrigada.

    Christian Lohbauer: Obrigada, Aline. Prazer estar com o professor Walther aqui. Eu sou, na verdade, cientista político, vim das Ciências Sociais, mas há mais de 20 anos eu iniciei uma atividade profissional como representante de associações, de representações coletivas e fui diretor da Associação Brasileira dos Exportadores de Frangos, hoje Associação Brasileira de Proteína Animal, onde eu ingressei nesse universo do agronegócio. E aí segui como presidente executivo da Associação Brasileira dos Exportadores de Sucos Cítricos, suco de laranja, né? E depois fiquei 5 anos na Bayer, também fazendo o mesmo trabalho de representação para assuntos governamentais, assuntos corporativos. E hoje assumi a presidência executiva da Croplife, que também é uma associação, desta vez que integra empresas de defensivos agrícolas, agroquímicos, biodefensivos e sementes, além das empresas que desenvolvem biotech, biotecnologia. A Croplife Brasil é uma associação múltipla, que integrou 5 associações que já existiam antes, é uma marca Internacional: a Croplife International já existe desde os anos 60, a marca existe desde os anos 70 e as Croplifes Estados Unidos, Canadá, Austrália, Europa, Japão, elas são entidades que integram empresas de defesa vegetal. No Brasil, as empresas de defesa vegetal estão juntas das empresas de biodefensivos. Nós somos hoje 50 empresas, 26 delas produzem biodefensivos. Então, é isso que me traz para essa boa prosa hoje com vocês.

    Aline Araújo: Muito legal a trajetória de vcs. Os termos biofertilizantes, biodefensivos são relativamente novos para o produtor rural. E aí, pensando nas pessoas que estão nos ouvindo, que não conhecem muito profundamente o assunto. Você poderia, professor Walther, explicar para a gente o que é efetivamente um biofertilizante?

    Valter Casarin: Vamos lá! Eu vou buscar a definição na legislação brasileira, que é feita pelo Ministério da Agricultura, onde ele define biofertilizante como um produto que possui quaisquer princípios ativos ou agentes orgânicos em sua composição, seja isento de agrotóxicos e capaz de atuar no cultivo de plantas de forma a elevar a produtividade e o porte da cultura. Então, eu estou até lendo essa definição, para que ela seja realmente dita da forma como ela está na nossa legislação. Agora, os biofertilizantes, se a gente for traduzir um pouco, eles são adubos orgânicos, o termo origem orgânica, que são submetidos ao processo de fermentação, normalmente é esse o processo que dá origem aos biofertilizantes e eles podem ser oriundos de matéria orgânica tanto de origem animal como vegetal. E tem como objetivo principal melhorar a produtividade e a qualidade das plantas. Tem algumas subdivisões que são feitas para os biofertilizantes, nós temos biofertilizantes de aminoácidos, que vêm de uma fermentação de materiais orgânicos naturais; nós temos biofertilizantes de substâncias húmicas, que é o produto obtido por decomposição e sorobilização de materiais orgânicos; nós temos biofertilizantes de extratos de algas ou algas processadas; nós temos biofertilizantes de extratos vegetais. Então, quando a gente fala em biofertilizantes, a gente não está oferecendo para a planta somente bionutrientes, tem algo mais, alguns estimulantes que têm nesses produtos que são oferecidos para a planta e que desencadeiam na planta, dão sinais para a planta e que ela tem que ativar isso para que ela produza mais, ela se desenvolva mais. Então, é mais ou menos isso que são os biofertilizantes.

    Aline Araújo: Muito legal sua explicação. Christian, você consegue explicar para a gente, por favor, sobre os biodefensivos?

    Christian Lohbauer: Olha, os biodefensivos são os produtos biológicos, de defesa vegetal, de uma maneira mais, a grosso modo, de uma maneira uma definição para as pessoas que não têm intimidade com o assunto, são microorganismos que atacam microorganismos, ou seja, um produto que você utiliza para ajudar a planta a se defender contra pragas e doenças, mas que não feitos, oriundos de uma molécula sintética, são na verdade, por exemplo, uma bactéria que ataca uma outra bactéria, ou um fungo que ataca um outro fungo, ou um fungo que ataca uma bactéria. São produtos geralmente de bio, produtos de origem de vida, vivos e que estão muito mais incorporados ao ambiente da natureza do que a agregação de produtos químicos sintéticos. Nessa diferenciação com biofertilizantes, utilizando uma linguagem mais simples eu diria que os biofertilizantes são os nutrientes para a planta, para ela ficar mais forte, fazer os seus processos mais eficientes, ficar mais saudável, produzir mais e os biodefensivos são os remédios, aqueles que ajudam elas a se protegerem contra doenças e pragas. Embora haja uma convergência, um overnaping entre esses produtos, no fundo essa é a diferenciação que existe. São produtos que têm crescido muito a sua utilização e a sua eficiência, no mundo inteiro e, no Brasil, há um espaço enorme, porque como no Brasil tem uma agricultura tropical e, portanto, a atividade de vida, o ambiente dinâmico da natureza dá espaço para muita inovação nesse universo dos biodefensivos. É uma nova fronteira da ciência que tem sido desenvolvida por brasileiros, empresas que estão aqui, pelas características muito peculiares da agricultura brasileira.

    Aline Araújo: Pela sua fala, professor Walter, além do biofertilizante, você falou sobre os fertilizantes. E aí, acho que seria legal também a gente trazer um contexto explicando a diferença entre os biofertilizantes, os fertilizantes minerais e os fertilizantes organominerais.

    Valter Casarin: Antes de entrar na sua pergunta, Aline, eu gostei bastante da forma como o Cristian colocou, a forma como se complementam os biofertilizantes e os biodefensivos. Por que a gente está saindo agora de uma pandemia, tomara a Deus que sim, não é? E nós tivemos aí a parte nutricional falando muito forte na prevenção dos sintomas mais graves da Covid 19 e que são importantes mas, da mesma forma, é muito importante a vacina, porque ela previne ou ela pode curar. A gente podia fazer uma associação entre os nutrientes, como a vitamina D, como um biofertilizante e a vacina, como um biodefensivo, que é um remédio pra gente controlar essa doença ou esse vírus. Então, a planta igual, é um ser vivo que tem necessidade tanto dos nutrientes que vão dar força, dar um estado imunológico maior. Mas, ao mesmo tempo, ela tem necessidade também do controle de pragas e doenças, senão, ela não sobrevive, ela não produz. Então, eles se complementam eles, são extremamente importantes para contribuir para a produtividade que a gente sempre almeja.

    Bom, indo para a sua pergunta, fazendo uma diferença entre os biofertilizantes, os fertilizantes minerais e os fertilizantes organominerais, a gente comentou já sobre esses biofertilizantes, que são produtos compostos por componentes ativos, como o Christian disse, bio significa vida, então é algo que vem de algo vivo, então os componentes são de origem animal, vegetal ou até microbiológico; mas são produtos oriundos de seres vivos. Agora, os fertilizantes minerais são compostos por substâncias de origem mineral, são minérios, são minas, são rochas; isso principalmente para fontes de Fósforo e Potássio. Então a produção deles é pela exploração desses depósitos naturais de diferentes rochas que têm concentrações altas dos nutrientes. Já no caso dos fertilizantes nitrogenados, isso muda um pouquinho, porque eles são oriundos do ar, nitrogênio do ar. Então, A indústria pega o nitrogênio do ar, faz uma reação com gás natural, com fonte de nitrogênio para formar amônia e, através dessa amônia, é que vai dar origem aos fertilizantes nitrogenados. Então, a gente percebe que na composição dos fertilizantes minerais não há nenhuma molécula tóxica e a gente quebra aqui um outro mito de que o fertilizante mineral é tóxico. Ele não é tóxico, ele não tem nenhuma molécula tóxica. Já os organominerais, eles são compostos tanto das substâncias minerais, dos fertilizantes minerais, como de substâncias orgânicas. Então, ele é uma mistura, uma mescla dessas 2 fontes. E essas substâncias orgânicas, desses fertilizantes orgânicos, têm a sua origem animal ou vegetal. Só para talvez fazer um complemento disso, dizer que os fertilizantes minerais são fontes mais concentradas, tem formas na sua composição já assimiláveis pela planta, então a reposta é mais rápida quando você aplica um fertilizante mineral. Por outro lado, quando a gente está falando de um biofertilizante, a resposta é um pouco mais lenta porque ele possui, na sua composição, partes orgânicas que precisam ser mineralizadas por microorganismos do solo para poder estar em formas assimiláveis pela planta. Então, essa é um pouco da diferença entre os 2. Agora, o que a gente tem que deixar muito claro é que, apesar de haver várias formas de fertilizantes, o objetivo deles é igual: é de repor os nutrientes ao solo para alimentar as plantas. E isso a gente tem que tratar como um cuidado vital, porque nós só conseguimos alimentar uma planta, se nós alimentarmos o solo e quem faz isso são os fertilizantes, os biofertilizantes, os organominerais, está bem?

    Aline Araújo: Sim, está bem claro. E ainda nessa linha, qual é o melhor manejo, como fazer a aplicação e o que o produtor deveria levar em consideração na escolha entre usar um biofertilizante ou um fertilizante mineral, eles deveriam fazer um uso combinado? O senhor poderia explicar um pouco qual seria a melhor forma do produtor decidir o que usar e como usar?

    Valter Casarin: Logicamente. Aline, É importante o agricultor sabe muito bem isso porque existe uma frase entre os agrônomos que é “depende”. Muita gente reclama que a gente fala muito depende. É que cada situação é uma situação. Cada situação tem sua particularidade. Então quando você vai fazer uma adubação, vai depender do tipo do seu solo, vai depender da fertilidade do seu solo, vai depender da cultura que você está explorando, do clima, o quanto chove, o preço do produto, que aí entra o frete também. Então, vc vê que tem vários fatores que determinam a forma que você vai fazer a sua adubação e aí entra como esses fertilizantes vão reagir a essas situações. Então, fica muito difícil você dizer assim: você usa um fertilizante mineral aqui e um fertilizante orgânico. O que eu posso te afirmar é o seguinte: sempre que você tiver disponibilidade de um biofertilizante, vale a pena ser utilizado. Logicamente se eles são utilizados de forma combinada, juntas, vale a pena porque o fertilizante mineral vai acabar fazendo um efeito mais rápido e, às vezes, a planta precisa nessa fase inicial desses nutrientes e, às vezes, um biofertilizante pode não estar oferecendo. Pode ter uma demanda alta da planta e o biofertilizante não. Essa combinação, ela é importante. Mas, se você tem um solo que tem uma disponibilidade, uma fertilidade boa, o biofertilizante vai se fazer seu efeito de uma maneira muito boa, às vezes, não havendo necessidade de aplicar o fertilizante mineral. Por isso que eu digo que depende muito, a gente tem que conhecer muito a situação. Agora, o biofertilizante tem vários motivos de ser aplicado. Essa coisa de liberação mais lenta pode ser negativa, mas não é. A forma lenta de disponibilidade, vai permitir uma disponibilidade durante mais tempo no ciclo da cultura, vai oferecer nutrientes durante mais tempo do ciclo e isso é positivo para a cultura. Ele vai permitir oferecer não só elementos, mas alguns efeitos estimulantes que estão presentes nos produtos biofertilizantes. E que isso é extremamente importante para a planta no seu crescimento, no seu desenvolvimento. Eles ajudam a manter a umidade do solo, estrutura física do solo, que é extremamente importante para o estabelecimento da microbiologia do solo. Ele vai diminuir a erosão do solo, ele vai aumentar a CTC do solo. O que é essa CTC? A CTC é onde fica o reservatório do solo, então quanto mais CTC, o maior CTC do meu solo, mais eu vou ter nutrientes ali no reservatório sendo disponibilizado para a planta e isso os biofertilizantes fazem de maneira muito positiva. O biofertilizante favorece o desenvolvimento de microorganismos do solo e microrganismo é vida do solo. Ele recicla nutrientes, porque a partir do momento que você está trazendo aquele resíduo animal ou vegetal, que poderia estar sendo descartado, você está trazendo de volta para o solo e isso é uma ação sustentável. Eu ficaria aqui hoje falando um Monte de benefícios do biofertilizante, mas eu vou parar por aqui, porque senão eu não vou deixar o Christian falar. rs

    Aline Araújo: O assunto é muito bom e aí rende, né? Mas, está muito interessante a explicação que você está trazendo, professor. E, Christian, você acredita que a utilização de bioinsumos em geral traz impacto financeiro positivo para os negócios dos produtores?

    Christian Lohbauer: Não tenho dúvida, Aline. O mercado, nesse ponto, é muito eficiente e o produtor rural, na média, ele tem margens sempre baixas. Então, ele só utiliza insumos que trouxerem claramente benefícios na sua produtividade. Os biodefensivos têm demonstrado, cada vez mais, uma eficiência e um efeito custo-benefício muito positivos. Para vc ter uma ideia, no mundo inteiro, a média de crescimento na utilização de biodefensivos na agricultura mundial, tem sido um aumento de 15% ao ano. Nós estamos falando de um mercado que, só no Brasil, vai atingir quase mais de 2 bilhões de reais. O crescimento das empresas brasileiras de biodefensivos na média tem sido em torno de 30% ao ano, nos últimos 2 anos. Há empresas que no ano passado, que foi um ano complexo, um ano de pandemia, cresceram 50%. Isso porque os produtos têm se demonstrado muito eficientes e com custos muito atraentes para o produtor agrícola. É, sem dúvida, uma nova fronteira dos insumos e da tecnologia agrícola principalmente em países com uma cultura tropical, como o nosso, que precisa ter produtos muito inovadores e muito rápidos na sua capacidade de ação, porque a nossa agricultura é uma agricultura diferente da do mundo temperado, ela tem uma quantidade grande de vida, em todos os sentidos e as plantas precisam rapidamente receber auxílio, principalmente as plantas que a gente desenvolve para produção de alimentos, para que tenham um índice de produtividade que levem o produtor a ganhar dinheiro. Não há dúvidas: essa é uma nova fronteira da agricultura, dos insumos para a agricultura e os biodefensivos são, a gente diz aqui, uma estrela da defesa vegetal.

    Aline Araújo: Christian, você trouxe números muito interessantes a respeito desse mercado. E agora pensando um pouco no comportamento do produtor rural, como que você vê a preocupação deles em atender à demanda dos consumidores que estão em busca de produtos e alimentos mais sustentáveis? É um movimento real ou ainda não faz parte da realidade da grande maioria?

    Christian Lohbauer: Eu acho que já faz parte, mas é difícil a gente medir até em que ponto está. A gente tem no Brasil uma coisa em torno de 5 milhões de propriedades, desde a maior fazenda até o menor sítio, mas a gente não tem como dizer assim qual a dimensão da utilização, do número de propriedades e até que espaço geográfico se está utilizando os biodefensivos. Mas, o que a gente sabe é que quanto mais profissional, quanto mais eficiente o produtor é, mais próximo ele está da utilização do biodefensivo como uma das tecnologias que ele utiliza na produção de alimentos. E quem define esse crescimento é justamente o consumidor, o produtor está atento com a necessidade de apresentar produtos cada vez mais alinhados, com um padrão baixo de resíduos e contaminantes e os biodefensivos auxiliam muito nesse processo. O que eu acho fundamental, Aline, por outro lado, deixar claro para o ouvinte, para as pessoas que estão começando a entender agora o que essa indústria, porque trata-se de uma indústria sofisticada, que precisa de gente inteligente, equipamento adequado e muita ciência, muito cuidado, porque está se lidando com microorganismos e o professor chamou a atenção para o nosso mundo atual, que lida com a questão de uma pandemia causada por um vírus, é a má utilização ou o pouco cuidado que se teve com um microrganismo. O que eu quero chamar atenção é o seguinte: para se produzir biodefensivos é necessário profissionalismo. E fica às vezes um mito, uma impressão geral na sociedade, até na agricultura de que qualquer um pode produzir um biodefensivo no seu próprio quintal, vamos dizer assim ou na sua própria fazenda. Não é bem assim. A gente tem trabalhado muito para esclarecer que é possível sim você ter uma biofábrica na sua fazenda e é saudável que isso aconteça, desde que se tenha o cuidado, se utilizem técnicas, procedimentos técnicos muito criteriosos, para que, sim, vc tenha produtos muitos homogêneos, eficientes e que o mercado continue identificando esses produtos como eficientes e que trazem um benefício que o produtor necessita.

    Aline Araújo: Pensando agora um pouco para as próximas safras, em termos de incentivo, investimento e consumo, professor, quais são as expectativas para esse mercado de bioinsumos?

    Valter Casarin: Aline, eu vejo que este é um mercado que está em franca expansão. Não tenho dúvida disso. A gente tem visto várias empresas com incentivo neste setor ou mesmo empresas que estão sendo criadas. Agora, a gente coloca um ingrediente aí, que é a crise do setor de fertilizantes que iniciou agora, neste ano de 2021, onde a gente viu o preço do fertilizante mineral subindo de forma significativa, dobrando, Triplicando de valor. Então, uma das perspectivas que a gente tem no setor de fertilizantes, principalmente já para a safra de 2022 é que talvez o preço esteja lá em cima, nas nuvens e a gente tenha a falta de fertilizantes. Então, o produtor vai ter que buscar novas opções e eu vejo os biofertilizantes como uma das vias mais adequadas para isso. É extremamente promissor o mercado de biofertilizantes, não tem como, não tenho dúvida disso. Da mesma forma, eu vejo isso para os biodefensivos, talvez o Christian possa explicar melhor, mas A gente vê os problemas que nós estamos passando com os biofertilizantes, da mesma forma dos defensivos. Então, o ano de 2022 promete muitas surpresas, talvez não muito agradáveis para o meio agrícola, mas a gente tem que lembrar que toda crise é uma ocasião para novos negócios e o setor de biodefensivos, eu acho que ele tem uma grande oportunidade de estourar. Ele já vem crescendo bastante, mas eu acredito muito que é uma grande oportunidade que ele vai encontrar para valorizar mais ainda o seu produto.

    Aline Araújo: Christian, você concorda com o professor, pensando um pouco para as próximas safras, com esse olhar específico para o biodefensivo?

    Christian Lohbauer: Eu acho muito interessante o que o professor Walter colocou em relação à conjuntura que nós estamos vivendo, quer dizer, essa crise contemporânea, conjuntural que, aparentemente, é uma crise estrutural, causada pela política energética, de uma forma geral, no mundo, em particular em relação à política energética chinesa, ela está trazendo dificuldades enormes para os insumos agrícolas, no que se refere ao fornecimento e, consequentemente, ao preço que se chegou, principalmente de fertilizantes e defensivos químicos. E aí tem uma pequena diferença, talvez o desafio de fertilizantes seja um pouco maior, porque trata-se, como foi dito, de minerais e que 80% são importados pelo Brasil e o universo do potássio talvez seja um pouco mais críticos e os nitrogenados também depois, mas no caso dos biodefensivos é uma oportunidade, porque os defensivos químicos enfrentam também Uma crise em relação ao fornecimento de herbicidas. A gente está vivendo agora um momento em que ainda existe produto na safra atual, contemporânea, de soja, mas para o ano que vem existe uma incerteza grande sobre a disponibilidade, principalmente de produtos que utilizam fósforo amarelo como a sua base de matéria prima. Os herbicidas conhecidos como glifosato, glufosinato, acefato são produtos que dependem do fósforo amarelo, são fostatados e vai haver certamente uma dificuldade de fornecimento. Isso abre sim uma oportunidade, como disse o professor Walter, para outras alternativas tecnológicas, mas certamente não vai ser, devido às proporções que existem entre os biodefensivos químicos que são muito diferentes, o biodefensivo não vai servir de alternativa, ele vai talvez servir, como uma outra situação, ele pode servir como alternativa e vai enfrentar uma demanda maior e um crescimento, certamente, mas ainda assim, as demandas por glifosato que são gigantescas no Brasil, ainda serão um problema grave no ano que vem, independente da oportunidade para biodefensivos.

    Aline Araújo: E Christian, o MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento lançou o programa nacional de bioinsumos, que visa a melhorar a oferta, oferecer suporte técnico, fomentar pesquisa sobre novos produtos; além de acelerar a criação de normas reguladoras para incentivar o surgimento de novas empresas no setor. Você pode comentar um pouco da importância disso para o crescimento do uso de insumos biológicos?

    Christian Lohbauer: O Plano Nacional de Bioinsumos é um plano que tem uma base de interesse político muito grande, é importante que um país como o Brasil tenha um plano dessa dimensão, que tenha sido estabelecido com uma meta de referência técnica, uma espécie de marco regulatório para a utilização, o crescimento e a expansão do uso de produtos bio em geral, biodefensivos em particular, porque a política, ela é muito maior, é um livro de regras e de orientações, que está muito além de biodefensivos. Mas, ela é uma política muito importante porque ela expõe para a sociedade, para a opinião pública, a oportunidade em várias dimensões do agronegócio e até outros, industriais, inclusive, para as tecnologias vivas, para as tecnologias de bio. É para isso que serve e essa é a importância que tem esse documento. Quando você entra no detalhe, aí você tem políticas específicas e regulatórias ainda necessárias para cada uma dessas subdivisões do mundo bio. E aí, para biodefensivos, há um universo específico de regulação, um universo regulatório que é bem característico de biodefensivos. Mas, são poucos os países que chegaram nesse ponto, de defender um plano dessa categoria, portanto é muito positivo, tanto para o ambiente nacional como Internacional.

    Aline Araújo: Pensando um pouco aqui no que tem acontecido no mundo do agronegócio, em coisas que têm sido muito discutidas, a COP26, que foi a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que aconteceu agora, no início do mês de novembro, discutiu alguns temas que afetam diretamente o agronegócio, não só aqui no Brasil como no mundo e tem potencial para impactar a rotina do agricultor. Foram citados temas como a demanda por energia limpa, O mercado de carbono e a sustentabilidade. Vocês podem falar um pouquinho sobre esse encontro e como ele está conectado com o aumento Da utilização de biológicos no agro brasileiro, começando por vc, Christian?

    Christian Lohbauer: Sim, Aline. A COP26 ela traz todas essas dimensões que você acabou de citar e tem relação direta com a nossa indústria. Tanto a indústria de defensivos como especificamente a indústria de biodefensivos, porque a relação da utilização de tecnologias para aumento de produtividade na agricultura está diretamente ligada à redução da expansão no uso da terra e, consequentemente, com a manutenção dos biomas e da natureza nos diferentes biomas que o país dispõe. Então, a tecnologia, esse é o primeiro ponto, vinculada a aumento de produtividade tem relação direta com sustentabilidade: mais produção em menos espaço, mais alimento em menos espaço, bom preço com qualidade, sem expandir o uso da terra. E o segundo aspecto, que é especificamente dos biodefensivos, é o caráter menos agressivo que um bom biodefensivo, que tem sido produzido de forma profissional, com técnica, com tecnologia e com todos os cuidados necessários traz para a produção agrícola. Hoje, no Brasil, só em torno de 3% da defesa vegetal vem dos biodefensivos, mas é um mercado que cresce muito e, então, a relação com a sustentabilidade também é direta, na medida que cresce o uso desses produtos, vc tem menos uso de defensivos mais antigos e mais agressivos à natureza e você contribui também para a sustentabilidade, de uma forma geral.

    Aline Araújo: Professor Walter, tem alguma coisa para contar pra gente a respeito dessa pauta da COP26?

    Valter Casarin: Sim, a gente viu bastante coisa sendo discutida na COP26 e, principalmente, uma intenção na redução do consumo de combustíveis fósseis, que hoje representa 83% da energia global e praticamente 2/3 da emissão de gases do efeito estufa são devido a esses combustíveis. Então, essa discussão a gente não viu desde a RIO92 e, na COP26, ela voltou a ser colocada em pauta. Agora, no entanto, não houve um comprometimento dos países mais ricos e a gente fica um pouco preocupado com isso. Então, apesar das fábricas de automóveis pretenderem ter uma frota dominada por carros elétricos, a gente vê a comunidade europeia admitir que, em 2030, os carros ainda serão, em sua maioria, ainda movidos por combustíveis fósseis. Nós vamos conseguir cumprir as metas do Acordo de Paris, que é diminuição de CO2, mas por que esse discurso inicial? Porque uma das pautas da COP26 foi a demanda por energia limpa e mercado de carbono, como vc citou. E os biofertilizantes tem muito a contribuir para isso, porque eles vão poder desenvolver mais os vegetais, que vai favorecer muito a produção e o rendimento das culturas, principalmente aquelas culturas que geram biocombustíveis, como é o caso da cana-de-açúcar e o milho. Então, o biofertilizante tem uma relação muito direta em aumentar a produção dessas culturas e gerar esses biocombustíveis. Um outro ponto que foi discutido foi essa Declaração Internacional para a Proteção de Florestas e eu digo que não só os biofertilizantes, mas os fertilizantes podem contribuir muito com isso. Mas, como o nosso assunto é biofertilizante, os biofertilizantes podem ser usados para aumentar a produtividade. E o que significa esse aumento de produtividade? Significa que nós vamos tirar mais alimentos de uma mesma área e nós vamos reduzir ou evitar qualquer tipo de desmatamento. Nós vamos estar preservando e isso o Brasil tem feito muito bem, essa lição de casa. Então, a gente tem assistido esse crescimento na produtividade de muitas culturas e muito em função do uso dos fertilizantes, dos biofertilizantes, seja ele também incluído nesse sistema. Com a reposição dos nutrientes ao solo, nós conseguimos essa façanha hoje de preservar quase 150 milhões de hectares de mata. Se a gente pegar a mesma tecnologia que a gente utilizava em 1970 e que nós usamos hoje, e o fertilizante tem uma contribuição significativa nisso, nós temos essa preservação de florestas enorme. E sem contar que hoje o Brasil hoje usa menos de 8% do seu território para agricultura. Enfim, dizer que o Brasil pratica uma agricultura não sustentável, um outro mito que a gente escuta muito, é uma grande incoerência, é não reconhecer o potencial da nossa agricultura. Então, quando eu trabalhava no IPNI – Instituto de Nutrição de Plantas, a gente fazia um balanço de nutrientes na agricultura brasileira e a avaliava como uma das melhores do mundo. O uso que nós fazemos dos nutrientes, onde entram os biofertilizantes, é altamente eficiente.

    Aline Araújo: Muito bacana esses pontos que vocês estão trazendo aqui. A gente está chegando no final do nosso episódio de hoje e eu gostaria de fazer uma última pergunta para vocês. É mais uma provocação em si do que uma pergunta. Pensando aí a longo prazo, vocês acreditam que os produtos biológicos vão substituir o uso de defensivos químicos nas lavouras?

    Valter Casarin: Talvez, por serem defensivos, Christian, eu passo pra vc, depois eu complemento. rs

    Christian Lohbauer: Tá bom. Não, eu acho que não, Aline. No curto e no médio prazo, com certeza não. Por que que eu estou dizendo isso? Porque hoje, inclusive, isso justifica a existência da nossa entidade aqui. O fato de você ter uma entidade como a Croplife, que integrou as tecnologias, ou seja, as empresas decidiram caminhar juntas nos seus pleitos coletivos, para isso que serve uma associação, elas se comunicam juntas, elas defendem os seus interesses regulatórios e legislativos juntas e elas trabalham juntas para desenvolver as boas práticas agrícolas junto ao produtor e a toda cadeia produtiva. Isso é um sinal claro de que ninguém vai superar ninguém. O que vai acontecer certamente é, paulatinamente, um crescimento grande do universo de biodefensivos, isso não tenho dúvida. Mas, eu acho que a gente viver uma agricultura sem os defensivos químicos ainda está muito distante da realidade prática da agricultura. O que a gente tem à nossa frente é o que a gente vende aqui: uma integração cada vez mais complexa e mais específica para cada produtor, para cada cultura e para cada local em que esse produtor estiver produzindo. Se ele estiver produzindo algodão no interior da Bahia, ele pode e tem à sua disposição sementes geneticamente modificadas, com características específicas para aquela região, utiliza defensivos químicos tradicionais para determinada fase da produção e também utiliza produtos biológicos, para uma outra determinada fase da produção. E essa matriz cruzada de tecnologias é o grande segredo da agricultura, principalmente da agricultura tropical. Quem souber usar melhor a combinação dessas tecnologias, terá mais alto grau de produtividade. Então, enquanto eu viver, pelo menos eu acho que nós vamos ter uma combinação de tecnologias e não a substituição.

    Valter Casarin: Aline, eu acho que eu estou na mesma direção que a resposta do Christian. Especificamente sobre esses biofertilizantes, eu acredito que tenha uma tendência de crescimento, mas não a ponto de substituir os fertilizantes minerais. Porque os fertilizantes minerais ainda proporcionam eficiência maior para os ganhos de produtividade, principalmente para as condições de solos brasileiros, que são solos pobres. Agora, eu queria convocar os ingredientes, para justificar a minha resposta. Quando a gente pega os dados que a FAO tem, que é a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, A população mundial deve chegar, em 2050, a aproximadamente 9,7 bilhões de pessoas. Então, nós vamos ter muita boca para alimentar E a produção mundial de alimentos terá que aumentar em torno de 60% em relação ao nível que a gente produzia em 2007. Então, esse aumento poderia ser alcançado se a gente abrisse novas áreas ou, então, desmatasse. No entanto, a conversão em terras aráveis terá um impacto negativo sobre o meio ambiente e a biodiversidade e, assim, não é o caminho. Agora, em 2025, nós vamos ter que tirar mais alimento da terra e há uma previsão que, para cada 1 hectare, nós vamos ter que alimentar 5 pessoas. Isso é uma previsão, então nós temos que aumentar essa produtividade, nós temos que aumentar a eficiência da produção de alimento. E a gente só vai conseguir isso, hoje, com o uso de fertilizantes minerais, porque eles são responsáveis pela metade do alimento produzido no mundo e esse é um dado já levantado por revistas científicas. Então, nas próximas décadas, os fertilizantes permanecerão ainda mais essenciais para a produção de alimento no mundo. Disso eu não tenho dúvida. E os fertilizantes minerais são necessários para apoiar o uso eficiente de terra arável, evitando qualquer mudança no uso da terra. Nós vamos continuar preservando a floresta, as matas, com o uso desses fertilizantes. De forma contrária, não vai acontecer. Então, assim, eu julgo que biofertilizantes poderão contribuir muito nessa missão, que está confiada aos fertilizantes minerais, que é de aumentar o rendimento na produção de alimento. Entretanto, os biofertilizantes irão cumprir essa missão de forma mais sustentável, não de uma forma tão direta como a gente gostaria. Ele é uma via mais sustentável, mas não tão eficiente, vamos dizer assim, dentro da necessidade que a gente tem hoje no mundo.

    Aline Araújo: Muito boa a explicação de vcs. O nosso papo está muito bom, mas infelizmente, acabou. Esse foi o episódio de hoje do nosso Minuto Agro. Eu espero que vocês tenham gostado. Obrigada a vc, ouvinte, por nos acompanhar até aqui. Queria abrir para os agradecimentos: prof. Walter, Christian, nossa conversa foi muito rica. Muito obrigada pela participação de vcs aqui.

    Valter Casarin: Me permite, Christian, fazer o primeiro agradecimento. Aline, eu quero agradecer muito o convite novamente. Eu fico muito honrado. Eu acho que esse bate bola com o Christian foi muito bom, que a gente se complementou bastante nas ideias e é isso. Muito obrigado. E eu deixo aqui, aproveitando, um Feliz Ano Novo e um Feliz Natal para todos os que estão nos ouvindo e vamos esperar que, para o próximo ano, a gente tenha mais sucesso. Mais sucesso não, a gente está sempre obtendo sucesso. Mas, que esse sucesso continue a crescer, principalmente naquilo que tem feito o Brasil crescer, que é o agronegócio. Muito obrigado.

    Aline Araújo: Obrigada, professor.

    Christian Lohbauer: Então, muito obrigado, professor Walter, pela sua companhia e pelos ensinamentos. Um prazer compartilhar contigo essa prosa. Aline, obrigado pelo convite e parabéns à Indigo pelo crescimento. Agradecer o convite de vcs. E dizer que realmente, esse universo dos biofertilizantes, dos biodefensivos e da bioeconomia, de uma forma geral, é uma nova fronteira para a economia, do conhecimento, as oportunidades. E o Brasil é certamente um dos países que apresenta o melhor ambiente para o desenvolvimento dessa nova fronteira do conhecimento E isso é bom para todo mundo: bom para os brasileiros, bom para a agricultura. E vamos aproveitar essas oportunidades para gerar prosperidade. Um prazer estar com vocês. Muito obrigado.

    Aline Araújo: Muito obrigada. Este episódio teve produção e colaboração técnica de roteiro e pauta do super time de Comunicação da Indigo. Nos sigam em todas as plataformas digitais, para não perder nenhum episódio. Terminamos aqui mais um podcast Minuto Agro. Esperamos você no próximo.

    Você ouviu Minuto Agro. É questionando que evoluímos. Seu podcast da Indigo. Ouça em todas as plataformas digitais.