Episódio 16: Os impactos das mudanças climáticas no agronegócio

    Neste episódio, falaremos sobre as iniciativas que ajudam a agropecuária a enfrentar os impactos das mudanças climáticas, falando sobre as previsões climáticas para a safra 2022/2023. Participa deste episódio Décio Luiz Gazzoni, Engenheiro Agrônomo e pesquisador da Embrapa.

    Transcrição

    Aline Araújo: Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio do Minuto Agro, é questionando que evoluímos. O podcast da Indigo. Eu sou a Aline Araújo, Head de Comunicação da Indigo. E esse é o espaço pra você ficar atualizado sobre o que acontece no agronegócio no Brasil e no mundo. No episódio de hoje, vamos abordar algumas iniciativas que ajudam a agropecuária a enfrentar os impactos das mudanças climáticas, falando sobre as previsões para a safra 2022/2023.

    Para conversar sobre o assunto com a gente, hoje temos como convidado Décio Luiz Gazzoni, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa. Seja muito bem vindo ao nosso podcast Minuto Agro.

    Décio Luiz Gazzoni: Oi, Aline. Muito obrigado pelo convite. É um prazer estar aqui conversando, não apenas com você, mas com todos os nossos ouvintes, acompanhantes do podcast, agricultores e demais componentes dos elos do agronegócio.

    Aline Araújo: Décio, para começar o nosso bate-papo, eu queria que você contasse um pouquinho para quem está nos ouvindo, da sua trajetória profissional e acadêmica e como que o seu trabalho está relacionado com o tema de hoje do nosso podcast.

    Décio Luiz Gazzoni: Aline, muito rapidamente, eu sou engenheiro agrônomo. Eu sou formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1971. Então, veja, eu já consegui acumular 51 anos de experiência no agronegócio. Desses, os últimos 48 anos eu passei na Embrapa, onde eu ingressei em 1974 – sou um dos primeiros pesquisadores a ingressar na Embrapa. Na Embrapa, eu já exerci inúmeras funções, mas eu gosto mesmo é de ser pesquisador. Esse é o meu chão. Também já trabalhei no Ministério da Agricultura, na Presidência da República e até em outros países, mas sempre ligado a assuntos do agronegócio. Eu só queria esclarecer que eu não sou climatologista, mas trabalhando com agricultura, não há como se desligar dos efeitos do clima sobre qualquer atividade, qualquer tecnologia que a gente venha a desenvolver. Especialmente nos últimos 30 anos, o avanço das mudanças climáticas, eu dedico uma boa parte do meu tempo a acompanhar o máximo possível dos estudos sobre o tema.

    Aline Araújo: É, de fato, o assunto mudança climática, ele está no cerne de todas as discussões hoje. E aí, de tudo isso que você estudou nesses últimos 30 anos, como que você consegue contextualizar o porquê que ele está acontecendo e como que isso afeta a produção no campo?

    Décio Luiz Gazzoni: Vamos procurar sintetizar a resposta , que ela seria bem longa, de forma bem didática. Então, eu vou colocar em pontos. Primeiro: o que é que nós estamos observando? Nós estamos observando que os eventos climáticos extremos, e aí são, por exemplo, secas, tempestades, inundações, eles estão ficando cada vez mais frequentes e cada vez mais intensos, ano após ano, a gente nota isso. E essa é uma das principais marcas das mudanças climáticas. O segundo ponto, é que as mudanças climáticas também já foram chamadas, há tempos atrás, de aquecimento global, não é o correto, não é o termo correto. Mas, de fato, também está havendo um aumento da temperatura média da Terra. E isso ocorre porque nós estamos mudando a composição da nossa atmosfera. A atmosfera, ela é composta de diversos gases e de vapor de água. Até o início do século passado, século 20, a proporção de gases na atmosfera era adequada para manter o clima relativamente estável ao longo do tempo, quase sempre com a mesma temperatura média dos anos anteriores ou próximo a ela. Mas, nos últimos 70 anos, as emissões de gás carbônico, que vêm das queimadas, do uso de combustíveis fósseis, de metano, que vem da pecuária, por exemplo, do lixo urbano, do óxido nitroso que, por exemplo, vem dos adubos nitrogenados usados na lavoura; eles alteraram fortemente a composição da atmosfera e é essa alteração que está causando as mudanças climáticas. E aí, no campo, como é que o produtor percebe isso? O produtor está sofrendo com secas prolongadas, que podem fazê-lo perder a melhor época de semeadura, por exemplo, prejudicar o desenvolvimento das plantas, dos frutos, dos grãos e, algumas vezes, até impedir a colheita por excesso de chuva. Também pode aumentar a incidência de insetos, pragas e doenças das plantas. E como nós podemos diminuir o avanço das mudanças climáticas? Emitindo menos gases de efeito estufa, ou seja, queimando menos florestas, usando menos petróleo, menos gás, carvão, usando mais energia do sol, do vento, mais biodiesel e etanol, usando mais plantio direto, integração lavoura pecuária, usando mais bioinsumos e menos insumos que precisam de energia fóssil para serem produzidos.

    Aline Araújo: E essas mudanças? Elas afetam a agricultura de todos os países da mesma forma?

    Décio Luiz Gazzoni: Não. Alguns países serão mais prejudicados que outros. Veja que eu estou usando o verbo no futuro, porque as mudanças climáticas estão acontecendo, mas estão no início delas. O pior, as grandes mudanças ainda estão por vir. Mas, os resultados que os cientistas dispõem no momento, eles indicam que os países que mais sofrerão serão aqueles situados na faixa tropical e subtropical do planeta, próximo ao Equador, próximo aos trópicos. E os menos prejudicados, serão os países de clima temperado, especialmente aqueles de clima muito frio. Mas, isso não é uma regra geral, nós não temos certeza absoluta disso e também existem exceções. Então, o Brasil, por estar na faixa subtropical e tropical do planeta, será um daqueles países mais prejudicados. Agora vamos para outro extremo. Não é que as mudanças climáticas não vão acontecer, por exemplo, na Rússia. Mas, a Rússia, por ter grande parte da sua área na faixa mais fria do planeta, ela poderá ter ampliado o período em que o agricultor pode usar a terra, chamada janela do clima, aquele período que vai do início da semeadura até o final da colheita, a gente sabe bem, que a Sibéria passa grande parte do tempo coberta de gelo, de neve, temperatura de até menos 70, então o tempo que o agricultor tem lá para plantar e para colher, normalmente não passa de três meses. E, de repente, com as mudanças, aumenta para 4 meses, 5 meses e a agricultura, de repente, pode ser dar melhor lá. Mas, também existem outros fatores que podem influenciar: uma disponibilidade de recursos dos governos para enfrentar as mudanças, a disponibilidade de tecnologias e, claro, a disposição do agricultor em adotar e utilizar essas tecnologias, a fim de reduzir os impactos negativos das mudanças, ou seja, os países mais ricos, com mais educação, com mais instituições de pesquisas, com agricultores mais conscientes serão menos afetados.

    Aline Araújo: Pensando que, neste momento, os produtores, eles estão aí, na na fase de planejamento e preparação para a safra 22/23. Analisando essas mudanças que têm ocorrido, é possível que a gente faça alguma previsão climática para essa próxima safra e dar para o produtor alguma sugestão de como que ele pode se preparar?

    Décio Luiz Gazzoni: Olha, para fazer previsões climáticas são utilizados alguns dos computadores mais poderosos do mundo. Esses computadores são capazes de fazer trilhões de cálculos por segundo. Aline, para se ter uma ideia, uma pessoa, você, eu, qualquer pessoa, ela precisa de, ao menos, um segundo para responder: Quanto é 2 + 2? 4. Imagine, então, trilhões de cálculos complexos nesse mesmo segundo. Mas, acontece que os computadores, eles trabalham em dois grandes tipos de informação para prever o clima: um tipo são as bases de dados, o que aconteceu no passado, que contém o clima das últimas décadas e, a outra informação, são as informações de momento, que estão acontecendo agora, aquilo que é obtido das milhares de estações meteorológicas e dos satélites que esquadrinham todo o nosso planeta. Então, essa segunda parte está ok. Mas, como o clima está mudando, as informações que temos sobre o clima dos últimos 30 anos, por exemplo, já não refletem corretamente o que está acontecendo agora e o que vai acontecer nos próximos anos. Então, as previsões de mais longo prazo, por exemplo, de meses, não são tão precisas. Logo, fica difícil fazer previsões para a próxima safra, com mais de 6 meses de antecedência, quando o clima está mudando com muita intensidade e ficando cada vez mais imprevisível. E a imprevisibilidade, é bom lembrar, é uma das marcas registradas das mudanças climáticas. Mas, para não deixar a pergunta sem uma resposta, a melhor informação de que nós dispomos no momento, vem da administração nacional de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, que todo mundo conhece pela sigla NOAA e ela projeta a continuidade do fenômeno La Niña. E o que é o fenômeno La Niña? É o resfriamento anormal das águas do Oceano Pacífico e, segundo a NOAA, isso perduraria, ao menos, até o inverno e eles dão até um número: há 53% de probabilidade agora, no momento, nesse mês de abril, de que a La Niña vai continuar no trimestre de junho a agosto, então, mais ou menos metade da probabilidade - pode continuar ou pode não continuar. Então, o outono e o inverno terão chuva abaixo da média, na maior parte da estação.

    Aline Araújo: Na última safra, a gente já viu aí um grande impacto, principalmente no Sul, em relação à seca. Até que ponto, os produtores, eles estavam preparados para suportar essa variação climática e como que isso prejudicou as lavouras, não só para a safra passada, que a gente já sabe o resultado, mas pensando a curto, médio e longo prazos, se isso gera algum impacto futuro também.

    Décio Luiz Gazzoni: Olha, a grande maioria dos agricultores não estava preparada, porque quem estava preparado, começou a se preparar alguns há anos, não tem como nos prepararmos para mudanças tão sérias no clima com 1 ou 2 anos. Normalmente, é um trabalho continuo, de anos. E, sem dúvida, Aline, o clima prejudicou muito a agricultura brasileira nessa última safra. Eu vou dar alguns exemplos: no sudeste, nós tivemos excesso de chuvas, inclusive com inundações em alguns estados. É bom lembrar, que Minas Gerais foi um estado muito afetado por inundações, que afetaram fortemente as lavouras, houve perda total de safras, em determinados momentos, houve chuvas de até 600 mm em apenas dois dias, quando esse volume deveria ocorrer ao longo de 6 meses e o agricultor sabe bem o que é uma chuva torrencial de 600 mm em 2 dias, é uma catástrofe! Já em outros estados, isso vale aqui para o sul do país, para Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, o problema foi inverso, a ocorrência de forte seca no final de 2021 e início de 2022 e isso prejudicou muito as culturas de verão, soja, milho, até o arroz, que é conduzido em lavoura irrigada, né? Mas, também afetou a horticultura, a fruticultura, a gente nota isso na feira, nos supermercados, o preço das frutas, de hortifrutigranjeiros disparados. Nesses quatro estados, há estimativa de perdas que podem chegar a até R$ 50 bilhões, isso é o que os agricultores desses estados perderam. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a redução de produtividade média da safra de verão foi estimada, pelo governo do Estado, em 40%, no Paraná, o governo estadual estima prejuízo que ultrapassa R$ 20 bilhões e, em determinadas regiões desses estados, a perda foi total, foi de 100%, simplesmente o agricultor não colheu nem soja nem milho. Mas, veja bem, Aline, o prejuízo dos agricultores, ele não se restringe apenas ao que aconteceu dentro da lavoura. Infelizmente, isso continua fora da lavoura. Então, há reflexos negativos de diversas ordens e vou dar alguns exemplos: a degradação das estradas rurais e até de rodovias, tem diversas rodovias interrompidas, então, isso prejudica o trânsito, prejudica a chegada de insumos, prejudica a saída da produção, a perda de poder aquisitivo dos consumidores, que terão que reduzir a compra de alimentos, os governos arrecadaram menos impostos e, com isso, diminui investimentos, seja em estradas ou outros serviços que são prestados ao agricultor, como a defesa agropecuária e, no limite, pode até reduzir o volume de crédito rural, por falta de dinheiro no orçamento governamental. Claro que não serve de consolo, mas o povo da cidade também está sofrendo muito com as mudanças climáticas, nós vimos aí perdas e dívidas, doenças, perdas de patrimônio, falta de água, de energia elétrica que, inclusive, ficou até mais cara. Então, realmente foi uma catástrofe essa sequência de eventos extremos e excesso de chuvas e secas na última safra.

    Aline Araújo: Pensando um pouco nas inovações e muito se fala da Agricultura 4.0, do papel da tecnologia hoje, na vida do produtor rural. Como que essas novas tecnologias podem contribuir para a diminuição de danos que as mudanças climáticas possam trazer às lavouras? Como que pequenos produtores podem aplicar, no dia a dia, algumas medidas que combinem a questão da tecnologia para amenizar as ações que poderiam ser provocadas por essas mudanças?

    Décio Luiz Gazzoni: Sem dúvida, todo esse conjunto tecnológico que vem com a chamada Agricultura 4.0, ela melhora fundamentalmente a gestão da propriedade, a gestão da produção e algumas tecnologias também, que podem ser aplicadas diretamente na lavoura. Mas, veja que algumas coisas já existiam e eu vou tentar alinhavar isso. Veja que, há mais de 30 anos, os cientistas vêm chamando a atenção para as mudanças do clima e mostrando aí os impactos que teriam na vida de todos e, em especial, na produção agrícola. Mas, os governos de praticamente todos os países do mundo não agiram de forma adequada para reduzir ou eliminar o impacto. Então, nós temos que voltar novamente para aquela questão, quer dizer, o agricultor pode ser atingido por dois problemas mais sérios, em função das mudanças climáticas. Então, primeiro, relembrando, é o excesso de chuvas, que pode fazer com que ele perca a melhor época de semeadura, ou que prejudica a colheita ou, ainda, que inunde parte da lavoura, em áreas de baixada, aí não tem muito que fazer: é administrar da melhor forma possível. O segundo problema é a seca e, para eliminar totalmente o problema, e falo eliminar totalmente o sofrer com seca, a única solução possível é a irrigação, mas nem todos os agricultores podem fazer uso da irrigação, seja por conta do alto custo do investimento, da pouca disponibilidade de água nas proximidades da lavoura. Mas, veja que também há um limite para a área de lavouras irrigadas, porque o uso da água é concorrencial, ou seja, a água dos rios ou mesmo de outros mananciais, não serve apenas para irrigar lavouras, também abastece casas, indústrias, possui funções no ambiente. E vamos imaginar, assim, por absurdo, que todos os 60 milhões de hectares de lavoura do Brasil passassem a ser irrigados. Então, a primeira pergunta que nós teríamos que fazer é a seguinte: qual é o impacto disso, na disponibilidade de água para os agricultores e para outros usos? Assim, a irrigação é importante, não quero desfazer em absoluto, mas não é a única solução e nem a solução para tudo e para todos. Então, vamos aqui para uma segunda ação, que é o correto manejo do solo e isso é muito importante e que todos os agricultores podem fazer. Não acontece de um ano para outro, mas é muito importante que os agricultores atentem para a melhoria do perfil do solo, ele precisa ser profundo, bem estruturado, com acidez e fertilidade adequadas, um bom teor de matéria orgânica, de maneira a permitir que o solo acumule água e, não basta acumular água, ele precisa permitir que as raízes das plantas possam aprofundar o máximo possível no solo, para utilizar a água que foi ali estocada e, principalmente, o solo não pode ter camadas compactadas que impeçam que a água penetre ou que as raízes se aprofundem. Bom, a terceira atitude do agricultor é o uso de plantio direto e da integração lavoura-pecuária, o ILPF, que ajuda a estruturar melhor o solo. A palhada que cobre o solo aí, no caso do plantio direto, impede evaporação da água, as fezes do gado auxiliam a aumentar o teor de matéria orgânica e também retêm umidade, a rotação de culturas, ela deve incluir plantas que melhorem o perfil do solo e aí eu cito a Brachiaria, o nabo forrageiro, o milheto que têm raízes que se aprofundam e que depois, com a sua degradação, elas estruturam melhor o solo, aeram o solo e aumentam o teor de matéria orgânica do solo. Mas, eu diria mais: pensando no tempo, os agricultores devem cobrar as instituições de pesquisa e eu sou pesquisador e, uma das instituições, é a Embrapa. O desenvolvimento de cultivares, seja de soja, de milho, o algodão, que sejam tolerantes à seca, então isso precisa ser apressado para que o agricultor possa se beneficiar do seu uso e isso é uma tecnologia que nós não temos hoje. E, veja bem, Aline, isso é perfeitamente possível de conseguir. O Brasil tem pesquisadores muito capazes, entre os melhores do mundo, que podem rapidamente responder ao agricultor. Mas, há um problema: cada vez mais os recursos disponíveis nos órgãos de pesquisa, eles são insuficientes para resolver todos os problemas que o agricultor enfrenta e que traz para nós, pesquisadores. Então, cabe aos agricultores e às suas lideranças, também cobrarem dos governos prioridade para a destinação de verbas para os órgãos de pesquisa, para que nós possamos dispor, dentre outras coisas, das cultivares que permitam tolerar secas e veranicos. Mas, vamos lembrar, mesmo quando nós dispusermos de cultivares tolerantes à seca, o agricultor não pode esquecer de utilizar todas as demais tecnologias, como eu falei: irrigação e de manejo do solo.

    Aline Araújo: Uma outra coisa, que é muito citada no momento, é a crescente do mercado de bioinsumos. De que forma que os produtos biológicos podem auxiliar medidas que diminuam danos provocados ao meio ambiente por consequência, no combate aí, às mudanças climáticas?
    Décio Luiz Gazzoni: Bom, nós podemos dividir o menor impacto dos bioinsumos em duas partes: a primeira delas, é na fase de produção dos insumos convencionais, de origem química, quando são usados derivados de petróleo tanto na composição, na formulação dos insumos, que fazem parte, intrínsecas dos insumos, quanto para fornecer energia para a mineração e para as indústrias de processamento. Eu gosto sempre de citar o exemplo da produção de adubos nitrogenados, que utiliza muito gás natural e outros derivados de petróleo, seja como insumo ou como energia. Além disso, os adubos nitrogenados, têm baixa eficiência na lavoura, aí cerca de 50% do adubo aplicado é arrastado pela água ou vai para a atmosfera, na forma de gases e, veja a ironia, que aumentam as mudanças climáticas. O segundo benefício dos bioinsumos ocorre na aplicação, pois além do efeito que eu acabei de citar aí, o exemplo que eu usei do adubo nitrogenado, sempre têm perdas desses produtos, seja um fertilizante ou pesticidas que podem contaminar a água, o ar, o solo, prejudicando a biodiversidade, que tanto favorece os agricultores. Assim, ficando no exemplo aqui do adubo nitrogenado, substituir esse adubo químico para a inoculação de sementes para aquelas culturas que são beneficiadas e, aí eu cito, principalmente, soja ou feijão, mas não são exclusivas, é uma ação que favorece o ambiente. E, assim, da mesma forma, substituir pesticidas químicos por biológicos, sempre levam um impacto menor na biodiversidade e favorece o agricultor.

    Aline Araújo: O Brasil, ele está entre os países participantes, que adotaram aí o programa ABC+ como política estratégica. Você pode explicar como funciona o programa e de que forma ele impacta e alcança o produtor rural brasileiro?

    Décio Luiz Gazzoni: Eu fico particularmente muito feliz, quando vejo o sucesso do programa ABC, porque eu fiz parte do grande grupo que fez a proposição inicial do plano, há 12 anos. Aquela proposta foi elaborada para ser parte dos compromissos do Brasil na reunião do clima, que ocorreu na Dinamarca, em Copenhage, em 2009. Basicamente, o governo brasileiro se comprometia a incentivar os agricultores, com o apoio de uma linha de crédito diferenciada, então, incentivar os agricultores a utilizarem um conjunto de tecnologias que diminuem as emissões de gases de efeito estufa, que causam as mudanças climáticas. Então, vamos relembrar quais eram as tecnologias:
    1. A recuperação de pastagens degradadas;
    2. A segunda era a integração lavoura-pecuária-floresta e os sistemas agroflorestais;
    3. O sistema de plantio direto;
    4. A fixação biológica de nitrogênio;
    5. A expansão de florestas plantadas;
    6. O tratamento de dejetos animais.
    Então, a primeira etapa do plano, que durou de 2011 a 2020, superou em muito as expectativas: foram mitigadas cerca de 170 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, uma área acumulada de 52 milhões de hectares, se não estou enganado, superando em 46% a meta estabelecida. Então, veja, que foi muito gás de efeito estufa que deixou de ir para a atmosfera. Agora, o plano ABC+, ele justamente tem o sinal mais (+), porque ele é mais ambicioso. Então, foram incluídas novas tecnologias como bioinsumos, e isso é muito importante, é uma mudança paradigmátca importante, sistemas irrigados, nós conversamos antes aí sobre a irrigação e a terminação intensiva de bovinos, por exemplo, essa última tecnologia pretende atingir 5 milhões de bovinos, a partir de técnicas de confinamento ou semiconfinamento. Então, veja que o plantio de florestas que já era tratada anteriormente, teve uma expansão de mais de 4 milhões de hectares para recuperação de áreas ambientais degradadas. Mas, vai além, porque tem a produção comercial de madeiras, fibras, alimentos, bioenergia e produtos florestais, inclusive os não-madeireiros, látex, resina. Então, veja que as metas até 2030 do ABC+, que no interior chamam de ABC Plus, elas são bastante ambiciosas. Veja que o governo brasileiro se compromete a recuperar 30 milhões de hectares de pastagens degradadas, esse número é altíssimo, se nós imaginarmos que usamos aí um total de, aproximadamente, 70 milhões de hectares para a agricultura, somar 30 em 10 anos é muita, muita, muita coisa. Aumentar o plantio direto em mais 12,5 milhões de hectares, aumentar a área de integração lavoura- pecuária-floresta e dos sistemas agroflorestais em 10 milhões de hectares, como eu falei, aumentar em mais 4 milhões de hectares as florestas cultivadas. Veja que o aumento da área irrigada já não é tão expressivo, justamente pelas limitações que eu falei antes, então a proposta é 3 milhões de hectares. Mas, já a inovação que eu falei, que é a área de bioinsumos, a previsão é que se expanda, que aumente a área tratada de bioinsumos em mais 13 milhões de hectares, isso aí é mais de 20% da área atual e é uma meta ambiciosa, que vai beneficiar muito, vão tratar mais de 200 milhões de metros cúbicos de dejetos animais. E, resumindo tudo isso, a meta é reduzir as emissões de gases efeito estufa em mais de 1 bilhão e 100 milhões de toneladas agora, de 2021 a 2030. E vamos lembrar que as emissões totais do Brasil em 2020, que é o último número que a gente tem, 2021 não fechou, então, em 2020, alcançaram 1,5 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente. Então, é mais ou menos, o que nós estamos pensando em evitar a emissão, ao longo dessa década, então é uma enorme contribuição da agricultura.

    Aline Araújo: Você resumiu bem aí no final, que todas as iniciativas, elas geram em torno das questões de carbono. Qual que é o papel da iniciativa privada nessa caminhada?

    Décio Luiz Gazzoni: Bom, eu falei muito aí sobre políticas públicas, o ABC+ é uma delas, o ILPF, o sistema de plantio direto, etc. Mas, veja bem, que nada disso pode ser feito sem iniciativa privada. Quer dizer, quando nós falamos em sistema de plantio direto, por exemplo, se não houver máquinas adequadas, não existe sistema de plantio direto e o governo não faz máquinas. Quem inova, quem produz as máquinas adequadas, quem as fabrica, quem as vende é a iniciativa privada. Talvez, no momento, o impacto maior venha justamente da produção de bioinsumos. Novamente, o máximo que o governo faz, é atuar em duas áreas: primeiro, na geração de informações, na geração de tecnologias de bioinsumos, e tem feito muito bem esse papel e, o segundo, é dispor de políticas públicas, como é o programa nacional de bioinsumos, que busca justamente incentivar e dar uma prioridade aos bioinsumos. Mas, nada disso vai acontecer, se não houver a participação da iniciativa privada em dois aspectos: o primeiro, todo o conjunto de formulação, de produção de bioinsumos, e colocar isso à disposição, que isso é feito pela iniciativa privada e, se não houver a adoção dos agricultores, que também é a iniciativa privada, o governo não planta 1 hectare de soja, de milho ou de algodão; quem planta é o agricultor e o agricultor é a iniciativa privada. Então, a participação da iniciativa privada é fundamental para o sucesso do ABC+ e de qualquer outra política pública que vise, justamente, diminuir as emissões de gases de efeito estufa e mitigar as mudanças climáticas. Então, todo esse conjunto, tudo que eu falei antes de manejo dos solos, é iniciativa privada.

    Aline Araújo: A gente está chegando no final do nosso episódio. Eu gostaria de deixar uma última pergunta: são muitas as oportunidades que se abrem para aumentar a eficiência dos sistemas de produção do Brasil, avaliando aqui tudo que a gente conversou hoje. Você pode falar um pouco mais sobre esse assunto?

    Décio Luiz Gazzoni: Aline, eu acho que nós abordamos bem o assunto nas respostas anteriores, mas vamos reforçar alguns pontos e trazer novos pontos aqui. Veja bem: o Brasil tem tudo para ser o maior exportador de alimentos para o mundo. E vamos falar em exportador líquido, ou seja, o que ele exporta menos o que ele importa. Porque, de repente, têm alguns países da Europa aí que podem dizer: Não, nós exportamos mais em valores. Exportam mais, mas eles precisam importar muita coisa, muita matéria-prima: importa cacau para vender chocolate, só que cada barra de chocolate custa quase o valor de 1 tonelada de cacau, vende café expresso, mas tem que importar o café que é produzido no Brasil. Então, o Brasil tem tudo para ser o grande produtor de alimentos no mundo. Só que, nós temos que ter a atenção voltada para o seguinte: o mundo está de olho na sustentabilidade dos sistemas de produção usados pelos produtores de cada país. Isso já está acontecendo e vai ficar cada vez mais sério, nós vamos ser muito cobrados e, quanto maior o Brasil ficar, mais ele vai ser cobrado. Eu costumo dizer que existe uma relação de amor e ódio do Brasil com o mundo. De amor, porque o Brasil garante a produção de alimentos e não vai deixar faltar alimento. Mas, de ódio, porque nós temos uma competiividade de tal ordem, que nós deslocamos competidores tradicionais. Esses competidores não vão abrir mão da sua parcela, do seu quinhão de mercado com facilidade, não. Vamos lutar! Então, quanto mais nós demonstrarmos ao mundo a nossa preocupação com sustentabilidade, tanto mais oportunidades de mercado, com melhores preços, se abrirão para nós. Então, dentro desse conceito, o aumento constante de produtividade sustentável deve ser uma preocupação permanente do agricultor porque, aumentando a produtividade, ele aumenta o seu lucro e evita o desmatamento. Inclusive, essa é uma questão que, às vezes, é polêmica, o pessoal levanta o chapéu e coça a cabeça: nós temos uma ONG chamada CESB – Comitê Estratégico Soja Brasil, que tem demonstrado, com números dos próprios agricultores que, quanto mais aumenta a produtividade, mais aumenta a sua margem, porque o custo não cresce tanto quanto a produtividade; ele ganha muito mais. Então, quem quiser esses números, obtidos dos próprios agricultores, pode ir lá no site do CESB, que vai ver os exemplos dos agricultores. O cuidado com o solo é fundamental. Se nós não tratarmos bem o solo, nada acontece daí pra frente, o manejo adequado do solo traz muitos ganhos para o agricultor: maior produtividade, mais qualidade nos produtos e maior capacidades de enfrentar os veranicos e secas. Então, cuidado com o solo é fundamental. Se todos nós agirmos com foco no aumento da sustentabilidade dos nossos sistemas de produção, o mundo nos verá com bons olhos e surgirão aí muitas oportunidades para fazermos bons negócios para os nossos produtos agrícolas, beneficiando todo o nosso agronegócio, agricultores e até o povo da cidade e até o governo.

    Aline Araújo: E assim, chegamos ao fim do episódio de hoje. Décio, gostaria de agradecer a sua participação, nossa conversa foi ótima. Você trouxe pontos excelentes. Muito obrigada por participar. Espero que você tenha gostado da experiência aqui com a gente.

    Décio Luiz Gazzoni: Eu gostei muito, Aline, mas quem deve agradecer sou eu. Foi ótima a oportunidade que vocês nos abriram para conversar com os nossos amigos, com os nossos agricultores e demais componentes dos elos do agronegócio. E dizer que nós estamos sempre à disposição para tratar desses assuntos. Muito obrigado.

    Aline Araújo: Esse foi o episódio de hoje do nosso podcast Minuto Agro.
    Obrigada a você, ouvinte, por nos acompanhar até aqui.
    O episódio teve produção e colaboração técnica, de roteiro e de pauta do supertime de Comunicação da Indigo.
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    Terminamos aqui mais um podcast Minuto Agro.
    Esperamos você no próximo!

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